Imagens: Fotos recolhidas no semanário «Expresso»É verdade que o discurso de Cavaco Silva na sua tomada de posse foi uma coisa inaudita, inaceitável, cruel e mesmo injustificável.
Tudo o que o Presidente entender ter de dizer aos portugueses deve fazê-lo; mas nos momentos e circunstâncias adequados. Não numa tomada de posse e muito menos em «recadinhos» no Facebook. Uma lástima!
Mas não deixa de ser verdade que Sócrates foi, no mínimo, incorrecto na forma como calou dele o futuro PEC que foi negociar, «às escondidas», com os seus parceiros europeus.
Sabemos, é certo, que se não o fizesse dessa forma, Sócrates corria o risco de ter de enfrentar «ordens» ou «sugestões» para negociações com o PSD ou com a própria presidência e que o momento não se compadecia com delongas. Não se vê, pois, como negociar, em horas, o que noutras alturas demorou semanas a fazer. E talvez que em casa de Catroga não houvesse telemóvel para registar o êxito da operação...
Mas, mesmo vendo-se obrigado a proceder como procedeu, nada justifica que Sócrates não tivesse usado um emissário ou mesmo o seu próprio telemóvel para informar o Presidente e - pelo menos - o PSD, apresentando as justificações e desculpas pelo procedimento.
Não o fez e, por isso, foi mal educado.
Pior que isso, deu azo a que, a partir desse acto escuso, possa ser acusado de constituir a escorva que fará disparar a crise política - a qual, neste momento, seria necessário evitar a qualquer preço.
Não se percebe que Sócrates não tenha entendido que estas medidas deviam ter sido explicadas ao Presidente da República, ao Parlamento e aos portugueses.
Mas, como um mal nunca vem só, o seu parceiro de um «tango a dois» apressou-se, também de forma infeliz e pouco reflectida, a avisar que o PSD não viabilizará o próximo Pacto de Estabilidade e Crescimento, vulgo PEC - o quarto ou quinto, que já lhe perdi a conta.
Agora como vai ser? O PEC vai ter de ser discutido e votado no Parlamento. Se não for por iniciativa do PS, sê-lo-á por qualquer outro partido. E então?
Bom, então, ou o PSD «perde a face» e deixa passar o maldito conjunto de medidas que vai penalizar até os pensionistas mais miseráveis, ou mantém a ameaça e será o PS a acusar o parceiro do «tango» de abrir a indesejada crise política.
E a Cavaco que papel está destinado na farsa, se este PEC for chumbado?
Apenas tem um caminho: dissolver o Parlamento, convocar novas eleições e, com este atraso, impedir quaisquer progressos nas conversações «com a Europa».
E depois, meus amigos? Depois do folclore habitual de uma campanha eleitoral. Alguém pensa que haverá um governo maioritário?
Nem pensar! Seja o PSD, seja o PS vai ver-se a braços com um governo minoritário.
E que pode propor esse governo? Resposta: o mesmo que este de Sócrates - mais medidas, mais apertar do cinto.
Suponhamos, então, que PSD e PS se entendem para um governo de coligação.
E que pode propor esse governo? Resposta: o mesmo que este de Sócrates - mais medidas, mais apertar do cinto.
Não estamos «à rasca»; estamos tramados!
Agradeçamos, pois, a Cavaco Silva, a Sócrates com o seu PS e a Passos Coelho com o PSD a crise política que aí está!
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Imagem: Carnaval de Quarteira 2011 – foto retirada da «Voz de Quarteira»


Verdade seja que o tempo não vai propício a grandes alegrias para a maioria, aquela a quem nunca chega o ordenado ao fim do mês (porque para outros, o vencimento até dá para lotar os hotéis da Serra da Estrela e as pistas de sky de Grandvalira – azares de um país onde 20 por cento da população tem ordenados 15 vezes maiores do que a média nacional, e onde 42 por cento vive no limiar ou abaixo do limiar da pobreza).
No tempo da «outra senhora», era assim: os funcionários comiam o que lhes davam e calavam… ou iam para a rua. Patrão paga, patrão manda, patrão pode.




Imagem: A esquizofrenia da crise. À esquerda, foto de D. Rocha/Público; à direita, de M. Baltasar/J.Negócios





Nem as piores crises nos destruirão a esperança.
Imagem: Foto de Estela Silva/Lusa