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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Escrever direito por linhas tortas

«por enquanto» ainda não é um ex-deputado…
Desde que foi convidado por Passos Coelho para deputado, Fernando Nobre tem sido objecto de fundadas críticas. Tanto mais que Passos Coelho cometeu a imprudência de o convidar para … presidente da Assembleia da República.

Infantilidade? Ignorância? Distracção? É que se havia coisas que o líder social-democrata não podia prometer, esta era uma delas; o presidente da AR é eleito pelos seus pares, por voto secreto, e nenhum deputado «em seu perfeito juízo» escolheria para esse cargo um indivíduo sem qualquer prática parlamentar, um indivíduo que classifica os partidos políticos como «ninho de víboras» e «covil de ladrões»; um indivíduo que se considerou apolítico e se propôs lutar «contra o sistema».

Depois de ter aceite o convite, quando percebeu que poderia não ser escolhido para ser a segunda figura do Estado, Nobre afirmou que, se não fosse eleito presidente da AR, não ficaria como deputado.

Toda a gente entrou em pânico; Passos Coelho à cabeça. E Nobre voltou com a palavra atrás, jurando, então, que cumpriria o mandato de deputado até ao fim.

A sua rejeição de hoje, em duas votações claras – algo que nunca acontecera nos 35 anos da AR - não foi provocada porque «as víboras» foram forçadas a isso, mas sim porque o «sistema» tem regras.

Agora que se viu forçado a retirar a candidatura, o homem disse que, se considerar que tal posição "defende os interesses do país", se vai manter como deputado "por enquanto".

Por enquanto, o médico da AMI «só» prejudicou a coligação que forma o Governo que amanhã será empossado e que assumiu, perante a «troika», o compromisso de «endireitar» o país.

Nobre encontrou uma excelente forma de "defender os interesses do país”!

domingo, 19 de junho de 2011

Antologia Poética

idílio
Sinto que, ás vezes, choras, minha Irmã,
No teu sombrio quarto recolhida...
É que ele vem rompendo a sombra vã
Da Morte, e lhe aparece á luz da vida!

E aflita, como choras, minha Irmã...
Teu choro é tua voz emudecida,
Ante a imagem do Filho, essa Manhã
Em profunda saudade amanhecida.

Silencio! Não palpites, coração;
Nem canto de ave ou mística oração
Um tal idílio venham perturbar!

Deixai o Filho amado e a Mãe saudosa:
O Filho a rir, de face carinhosa,
E a Mãe, tão triste e pálida, a chorar...

Teixeira de Pascoaes, in 'Elegias'

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Dia da Criança

menino
No colo da mãe
a criança vai e vem
vem e vai
balança.
Nos olhos do pai
nos olhos da mãe
vem e vai
vai e vem
a esperança.

Ao sonhado
futuro
sorri a mãe
sorri o pai.
Maravilhado
o rosto puro
da criança
vai e vem
vem e vai
balança.

De seio a seio
a criança
em seu vogar
ao meio
do colo-berço
balança.

Balança
como o rimar
de um verso
de esperança.

Depois quando
com o tempo
a criança
vem crescendo
vai a esperança
minguando.
E ao acabar-se de vez
fica a exacta medida
da vida
de um português.

Criança
portuguesa
da esperança
na vida
faz certeza
conseguida.
Só nossa vontade
alcança
da esperança
humana realidade.

Manuel da Fonseca, in "Poemas para Adriano"

domingo, 1 de maio de 2011

Primeiro de Maio

dia do trabalhador - dia da mãe

Porque hoje é dia do Trabalhador, mas porque hoje, também é o Dia da Mãe, nenhum poema me pareceu mais adequado que este, dedicado a uma Mãe Trabalhadora, de António Gedeão, esse poeta sensível e profundamente humano.

calçada de carriche

ANTÓNIO GEDEÃO, in «Teatro do Mundo»

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O melhor do Mundo

liberdade Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

FERNANDO PESSOA, in "Cancioneiro"

terça-feira, 12 de abril de 2011

Em Abril, sondagens mil

ps a subir; direita sem maioria absoluta

Para que os leitores possam ir analisando o que dizem as sondagens que por aí se vão multiplicando, aqui fica mais uma.

É uma sondagem da Intercampus, realizada entre 8 e 10 de Abril, para a TVI, que dá ao PSD uma vitória com 38,7 por cento dos votos, não muito longe dos 33,1 por cento do PS que, nesses dias realizava o seu congresso.

O partido liderado por Passos Coelho surge, portanto, à frente do PS.

Se as eleições se realizassem agora, o CDS conseguiria 9,4 por cento, o que deixaria uma coligação entre CDS e PSD ligeiramente aquém da maioria absoluta.

Ainda segundo a sondagem, a CDU teria 8,1 por cento dos votos e o BE ficava-se pelos 7,6 por cento.

Por comparação com uma sondagem igualmente da Intercampus de 27 de Março, o PSD desce 3,5 por cento e o PS tem uma ligeira subida, de 0,3 por cento. O CDS sobe 0,7 por cento, a CDU sobe um por cento e o BE desce 0,3 por cento.


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Porque hoje é dia de São Valentim

submisso
Mandas-me, cumpro. Eu sou o autómato modesto
Que a tua mão dirige e o teu olhar fascina:
Prende-se a minha vida à curva purpurina
De tua boca e à luz do teu sorriso honesto.

Só quero o teu amor (profundo amor!); de resto,
Em nada penso e creio. É esta a minha sina;
Aos teus caprichos, flor, todo o meu ser se inclina,
Seguindo a sua lei traçada no teu gesto!

E nesta escravidão cujos grilhões abraço
E beijo tanta vez, alarga-se-me o espaço,
Em que ouço alegremente os rouxinóis cantar.

Eu fiz do meu segredo um cárcere risonho,
Oh! déspota gentil, embala-me este sonho
Olha-me, eu quero luz! Fala-me, eu quero ar!

Conde de Monsaraz, Poesias
*

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Poema para um Ano Novo

recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga

Palavras sábias e belas, para um bom recomeço, em 2011
*

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Dia Mundial do Mar

mensagem de pessoa ao mar português
Uns dizem que é hoje, 23; outros dizem que é em 26 de Setembro. A UNESCO diz que é… na última semana de Setembro.

Talvez por esta indefinição, o Algarve quase se esqueceu dele - do Dia Mundial do Mar, «espalhando» algumas celebrações entre 20 e 26 de Setembro.

O Governo Civil de Faro difundiu uma nota de imprensa ao melhor estilo da anedótica palestra da ministra da Educação aos alunos, pais e professores, no arranque do presente ano lectivo.

O IPTM também nada parece ter feito. O litoral algarvio parece lembrar-se apenas do nosso mar quando se trata de «vendê-lo» aos turistas.

O ‘Calçadão’ deixa a sua melhor «Mensagem» - uma das melhores de Fernando Pessoa:

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
;

domingo, 20 de junho de 2010

Blimunda, filha de Sebastiana

e as pessoas voltarão às suas casas, refeitas na fé
Tributo do Calçadão a José Saramago.

“… e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu, mas explicaram-me que era efeito demoníaco, que sei que posso ser santa como os santos o são, ou ainda melhor, pois não alcanço diferença entre mim e eles, mas repreenderam-me de que isso é presunção insuportável e orgulho monstruoso, desafio a Deus, aqui vou blasfema, herética, temerária, amordaçada para que não me ouçam as temeridades, as heresias e as blasfémias, condenada a ser açoitada em público e a oito anos de degredo no reino de Angola, e tendo ouvido as sentenças, as minhas e mais de quem comigo vai nesta procissão, não ouvi que se falasse da minha filha, é seu nome Blimunda, onde estará, onde estás Blimunda, se não foste presa depois de mim, aqui hás-de vir saber da tua mãe, e eu te verei se no meio dessa multidão estiveres, que só para te ver quero agora os olhos, a boca me amordaçaram, não os olhos, olhos que não te viram, coração que sente e sentiu, ó coração meu, salta-me no peito se Blimunda aí estiver, entre aquela gente que está cuspindo para mim e atirando cascas de melancia e imundícies, ai como estão enganados, só eu sei que todos poderiam ser santos, assim o quisessem, e não posso gritá-lo, enfim o peito me deu sinal, gemeu profundamente o coração, vou ver Blimunda, vou vê-la, ai, ali está, Blimunda, Blimunda, Blimunda, filha minha, e já me viu, e não pode falar, tem de fingir que me não conhece ou me despreza, mãe feiticeira e marrana ainda que apenas um quarto, já me viu, e ao lado dela está o padre Bartolomeu Lourenço, não fales, Blimunda, olha só, olha com esses teus olhos que tudo são capazes de ver, e aquele homem quem será, tão alto, que está perto de Blimunda e não sabe, ai não sabe não, quem é ele, donde vem, que vai ser deles poder meu, pelas roupas soldado, pelo rosto castigado, pelo pulso cortado, adeus Blimunda que não te verei mais, e Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis.
Já passou Sebastiana Maria de Jesus, passaram todos os outros, deu volta inteira a procissão, foram açoitados os que esse castigo haviam tido por sentença, queimadas as duas mulheres, uma primeiramente garrotada por ter declarado que queria morrer na fé cristã, outra assada viva por perseverança contumaz até à hora de morrer, diante das fogueiras armou-se um baile, dançam os homens e as mulheres, el-rei retirou-se, viu, comeu e andou, com ele os infantes, recolheu-se ao paço no seu coche puxado a seis cavalos, guardado pela sua guarda, a tarde desce depressa, mas o calor sufoca ainda, sol de garrote, sobre o Rossio caem as grandes sombras do convento do Carmo, as mulheres mortas são descidas sobre os tições para se acabarem de consumir, e quando já for noite serão as cinzas espalhadas, nem o Juízo Final as saberá juntar, e as pessoas voltarão às suas casas, refeitas na fé, levando agarrada à sola dos sapatos alguma fuligem, pegajosa poeira de carnes negras, sangue acaso ainda viscoso e nas brasas não se evaporou. Domingo é o dia do Senhor, verdade trivial, porque dele são todos os dias, e a nós nos vêm gastando os dias se em nome do mesmo Senhor não nos gastaram mais depressa as labaredas, por duplicada violência, que é a de me queimarem quando por minha razão e vontade recusei ao dito Senhor ossos
e carne, e o espírito que me sustenta o corpo, filho de mim e de mim, cópula directa de mim comigo mesmo, infuso do mundo sobre o rosto escondido, igual ao mostrado e por isso ignorado. No entanto, é preciso morrer.”
JOSÉ SARAMAGO – in «Memorial do Convento»
.
Saramago: lá onde escolheste estar, que Céu não tens (porque não queres, Saramago), recorda que a Inquisição não perdoa. Não perdoa.
...

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Dia de Portugal

esta é a ditosa pátria minha amada

Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floresça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora, e lá na ardente
África estar quieto o não consente.

"Esta é a ditosa pátria minha amada,
A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela então os Íncolas primeiros.
Lusíadas, Canto III, 20/21
-

terça-feira, 1 de junho de 2010

Dia da Criança

quando era criança
Quando era criança
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.

É hoje que sinto
Aquilo que fui
Minha vida flui
Feita do que minto.

Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.

(ortónimo tardio de Fernando Pessoa)

.

sábado, 22 de maio de 2010

SMS ao Sócrates que temos dentro de nós

quando chegamos a ayamonte
O «portunhol» de Sócrates perante a plateia de homens de negócios espanhóis foi uma nota de humor na aridez do mundo dos negócios, um borrão negro numa aguarela de Malhoa, ou um episódio pícaro que nos envergonhou e humilhou a língua portuguesa?

Depende do nosso ponto de vista, sempre mais prontos a criticar as escorregadelas dos outros do que a olharmos simplesmente para o cidadão que o espelho nos reflecte.

Certo é que, se nos lembrarmos daquilo que nós próprios fazemos mal transpomos a ponte do Guadiana e pisamos «la tierra de nuestros hermanos», talvez encaremos a atitude do nosso primeiro ministro menos como um grito de corvo numa sinfonia de Sibelius, mas a apreciemos mais como uma papoila vermelha isolada, na monotonia do verde de uma seara alentejana.

Consolemo-nos: o problema não é novo...

“… Eu tive uma admirável tia que falava unicamente o português (ou antes o minhoto) e que percorreu toda a Europa com desafogo e conforto. Essa senhora, risonha mas dispéptica, comia simplesmente ovos - que só conhecia e só compreendia sob o seu nome nacional e vernáculo de «ovos». Para ela huevos, oeufs, eggs, das ei, eram sons da Natureza bruta, pouco diferençáveis do coaxar das rãs, ou dum estalar de madeira. Pois quando em Londres, em Berlim, em Paris, em Moscovo, desejava os seus ovos — esta expedita senhora reclamava o fâmulo do Hotel, cravava nele os olhos agudos e bem explicados, agachava-se gravemente sobre o tapete, imitava com o rebolar lento das saias tufadas uma galinha no choco, e gritava qui-qui-ri-qui! có-có-riqui! có-ró-có-có. Nunca, em cidade ou religião inteligente do Universo, minha tia deixou de comer os seus ovos - e superiormente frescos!"

EÇA DE QUEIROZ, in «Cartas de Fradique Mendes»
.

domingo, 2 de maio de 2010

Dia da Mãe

a moldura das rosas, mãe
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
.

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
.
ainda oiço a tua voz:
......... Era uma vez uma princesa
......... no meio de um laranjal...
.
Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
.
Boa noite. Eu vou com as aves.
.
EUGÉNIO DE ANDRADE, in "Os Amantes Sem Dinheiro" (fragmento)

sábado, 20 de março de 2010

Primavera

- - - - - - -- - - - - - - - - - anunciação
.
Surdo murmúrio do rio,
a deslizar, pausado, na planura.
Mensageiro moroso
dum recado comprido,
di-lo sem pressa ao alarmado ouvido
dos salgueirais:
a neve derreteu
nos píncaros da serra;
o gado berra
dentro dos currais,
a lembrar aos zagais
o fim do cativeiro;
anda no ar um perfumado cheiro
a terra revolvida;
o vento emudeceu;
o sol desceu;
a primavera vai chegar, florida.

MIGUEL TORGA


sábado, 6 de março de 2010

Nas montanhas, nos campos e na areia

Aqui declaro que não tem fronteiras.
Filho da sua pátria e do seu povo,
A mensagem que traz é um grito novo,
Um metro de medir coisas inteiras.


Redonda e quente como um grande abraço
De polo a polo, a sua humanidade,
Tendo raízes e localidade,
É um sonho aberto que fugiu do laço

Vento da primavera que semeia
Nas montanhas, nos campos e na areia
A mesma lúdica semente,

Se parasse de medo no caminho,
Também parava a vela do moinho
Que mói depois o pão de toda a gente.
Miguel Torga

MIGUEL TORGA, pseudónimo adoptado por Adolfo Correia da Rocha, nasceu em 12 de Agosto de 1907, em S. Martinho da Anta, concelho de Sabrosa, Trás-os-Montes, filho de gente do campo, não mais se desliga das origens, da família, do meio rural e da natureza que o circunda.

Entrou no seminário, donde saiu pouco depois, emi-grando para o Brasil em 1920, para trabalhar na fa-zenda do tio que, apercebendo-se das suas qualida-des, lhe paga os estudos no liceu de Leopoldina.

Regressou a Portugal em 1925, entrando da Faculdade de Medicina de Coimbra e, ainda estudante, publicou então os seus primeiros livros. Depois foi um manancial de escrita e de dedicação. Um dia voltaremos a falar da sua obra.

Morreu em 17 de Janeiro de 1995 e está enterrado em S. Martinho da Anta, junto dos pais e irmã.
Imagem: Miguel Torga, por Carlos Botelho

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Boas festas, num poema de Natal

para os que vão e os que não vão à sua manjedoura
Cristo nasceu. Nascido permanece.
Contudo não lhe fui à manjedoura:
à medida que morro desaprendo
o caminho sonhado por meus pés.
Ervas encobrem sendas de Judá
que outrora palmilharam magos, bois.
(Já à beira do Sinai, nascem fragores,
não das sarças ardendo, mas dos ódios.)

Aos olhos de quem soube do menino
e se aventura a achá-lo, entre destroços
de uma Jerusalém abandonada,
não brilha mais a estela solitária.
Hoje são muitas, todos nos confunde
me indicam mil caminhos: nenhum leva
ao Cristo adormecido entre capim.

…………….
E amar, sem tornar vil, nossa alma de homem
- aí, frágil, desvairada alma, tão grande
para abrigar tão mínima aventura,
com sua podridão angustiada,
que nos consome porque não sabemos
o caminho que leva à manjedoura.

Amadeu Thiago de Mello (Brasil, 1926 - …)

Que o Natal seja, para cada um dos nossos leitores, aquilo que mais desejem que seja.
- São os votos da equipa do «Calçadão de Quarteira».


ANA MARIA, LOURENÇO ANES, JOSÉ CARLOS e RUI GALIÓS.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Nossa Senhora da Conceição

procissão
ad petendam pluviam
Tlão. Tlão. Tlão. Tlão
Vai pelos campos
a procissão,
que Deus mande água
por compaixão!
Desmaia a vinha!
Mirra-se o pão
e a terra é seca
como um carvão!...

O povo leva
com devoção
Nossa Senhora
da Conceição,
de monte em monte,
por onde estão
velhos de rastos,
olhos no chão,
e as mãos cruzadas
em oração.

Choros e rezas
foi tudo em vão;
Nossa Senhora
quis procissão!
Ela tem tudo
na sua mão;
é quem mais manda
no céu cristão;
vamos ter chuvas
até mais não…
Não acreditam?
Verão, verão!

Dobram os sinos
Tlão! Tlão! Tlão! Tlão!
Foguetes, bombas,
que reinação!
Padres de estola
mascando vão
latim de solfa
do cantochão,
e o incenso, em nuvens
pela amplidão,
cheira que é uma
consolação!

O padre Vasco
pregou sermão
contra a notória
devassidão;
calor na igreja,
muito apertão,
desmaios, gritos,
ai, que aflição!
Se isto é castigo,
se é maldição,
Deus nos acuda:
Perdão, perdão!

Por entre as searas
a multidão
vai murmurando:
«Perdão, perdão!»
E o prior velho
levanta a mão
e agita o hissope
da remissão
com água benta
cuja aspersão
orvalha o trigo
mais o feijão.

E a Virgem Santa
da Conceição,
manto de seda,
brincos, grilhão,
anéis de pedras
de estimação,
laços e flores
em profusão,
lá vai sorrindo
com tal unção,

com tanta graça
tanta expressão,
que todos crêem,
sem distinção,
que vão ter água,
que vão ter pão!


Em dia de Procissão da Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal e dos pescadores de Quarteira, aqui vos fica uma bela homenagem, do Conde de Monsaraz, António de Macedo Papança (1852-1913).

domingo, 26 de julho de 2009

Antologia

canção
Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.

Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão.

EUGÉNIO DE ANDRADE

José Fontinhas (Póvoa de Atalaia, Fundão, 19 de Janeiro de 1923 - Porto, 13 de Junho de 2005), assinou a sua obra com o pseudónimo de Eugénio de Andrade.
Foi para Lisboa aos dez anos, quando os pais se separaram, e escreveu os seus primeiros poemas e, 1936, publicando - «Narciso» três anos depois. Mudou-se para Coimbra em 1943, onde conviveu com Miguel Torga e Eduardo Lourenço. Muda, depois , para o Porto por deveres profissionais (Inspector Administrativo do Ministério da Saúde). Eugénio de Andrade sempre viveu distanciado da chamada vida social, literária ou mundana, tendo o próprio justificado as suas raras aparições públicas com «essa debilidade do coração que é a amizade».

terça-feira, 30 de junho de 2009

O Tó vai na frente do campeonato nacional

o golfista de quarteira está em grande
António Rosado, o nosso “Tó”, atleta do Clube de Golfe de Vilamoura, que está prestes a completar 25 anos e já entrou na categoria de profissionai há mais de um ano, lidera o Campeonato Nacional de Profissionais Halcon PGA, à frente dos seus 21 adversários, após a primeira volta do torneio de 22 mil euros em prémios monetários, que hoje (terça-feira) arrancou no Porto Santo.

O jovem quarteirense completou os primeiros 18 buracos em 73 pancadas, 1 acima do Par, à frente de Jorge Rodrigues, Hugo Santos e António Dantas.

António Sobrinho, de Vale do Lobo, o recordista, com 11 títulos, e actual campeão em título, é o 8º classificado, com 78 (+6).

Se nós estamos contentes com a proeza do nosso conterrâneo, imagine-se como estará babada a nossa simpática Dénia, a mamã feliz de um rebento assim!...