do pastor peregrino


A tristeza sem fim que o peito encerra,
Moveria aos penedos desta terra
A nova piedade e o novo espanto.
Se puderam meus olhos chorar tanto,
Quanto se deve à causa que os desterra,
Cobririam já em lágrimas a terra
Escurecendo o seu tão verde manto.
Mas o que tem amor dentro encerrado
Na alma, que a língua e os olhos se defende
Não pode ser com lágrimas contado:
Ah que sabe sentir quanto compreende,
Que o mal que está oculto em meu cuidado,
Não se vê, não se mostra, não se entende.
RODRIGUES LOBO (1580 – 1622)

Rodrigues Lobo nasceu na cidade de Leiria numa família de cristãos-novos, em 1580. Pouco se sabe da sua vida e, no entanto, este Doutor em Direito pela Universidade de Coimbra, poeta e novelista, escritor de textos "políticos, morais e métricos", foi um dos primeiros escritores do seu tempo, pela pureza da sua linguagem.
Dava-se bem em ambientes requintados e convivia com a nobreza, vivendo em casa de D. Duarte de Bragança. Toda a sua vida decorreu durante a ocupação espanhola filipina em Portugal, o que pode explicar ter escrito mais em língua castelhana que em português.
Viria a morrer cedo, numa viagem, afogado no Tejo, em 1622.
Autor, entre outras, das obras: «Corte na Aldeia» (1619), que é considerada como o primeiro sinal literário do Barroco em Portugal e descreve as relações sociais do seu tempo; «Condestabre» (1609); «O Pastor Peregrino» (1608) e «Primavera» (1601), título geral das três novelas pastoris: (Primavera, Pastor Peregrino e Desenganado).
A sua escrita reflecte claramente uma influência da lírica de Camões

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1 comentário:
Realmente, isso parece mesmo de Camões!
Obrigada pela revelação.
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