Tenho a certeza
De que entre nós tudo acabou.
- Não há bem que sempre dure,
E o meu, bem pouco durou.
Não levantes os teus braços
Para de novo cingir
A minha carne de seda;
- Vou deixar-te, vou partir!
E se um dia te lembrares
Dos meus olhos cor de bronze
E do meu corpo franzino,
Acalma
A tua sensualidade
Bebendo vinho e cantando
Os versos que te mandei
Naquela tarde cinzenta!
Adeus!
Quem fica sofre, bem sei;
Mas sofre mais quem se ausenta!
De que entre nós tudo acabou.
- Não há bem que sempre dure,
E o meu, bem pouco durou.
Não levantes os teus braços
Para de novo cingir
A minha carne de seda;
- Vou deixar-te, vou partir!
E se um dia te lembrares
Dos meus olhos cor de bronze
E do meu corpo franzino,
Acalma
A tua sensualidade
Bebendo vinho e cantando
Os versos que te mandei
Naquela tarde cinzenta!
Adeus!
Quem fica sofre, bem sei;

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Meu amor, na despedida,
Nem uma fala me deu;
Deitou os olhos ao chão
Ficou a chorar mais eu.
Demos as mãos na certeza
De que as dávamos amando;
Mas, ai!, aquela tristeza
Que há sempre neste "Até quando?,"
- Numa lágrima surgiu
E pela face correu. . .
Nada pudemos dizer,
Ficou a chorar mais eu.
ANTÓNIO BOTTO, (1847 / 1947)
António Tomás Botto, poeta e contista, nasceu em Concavada, Abrantes, em 17 de Agosto de 1897, e passou a infância no bairro de Alfama, em Lisboa. Emigrou para o Brasil em 1947, onde veio a falecer, atropelado, no Rio de Janeiro, em 16 de Março de 1959, na mais dolorosa miséria.
É mais um dos autores com ligações estreitas ao «Grupo Modernista», que tenho procurado divulgar ultimamente.

Integrado no primeiro grupo modernista, de Almada Negreiros, Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, deixou uma extensa obra que o individualiza claramente.
Sendo homossexual assumido, a sua obra, no seu conjunto, será, provavelmente, o mais distinto conjunto de poesia homoerótica de língua portuguesa.
Os seus restos mortais foram trasladados para o cemitério do Alto de São João, em Lisboa, em 1966.
2 comentários:
Ai se o censor Seruca descobre aqui o Botto!!!
O que vale é que não acredito que o seu poder censório seja capaz de atingir o Calçadão.
Agora, mais a sério, quero felicitar a professora Ana Maria pelas escolhas e coerência dessas escolhas.
A sua longa ausência fez-se sentir, sabe?
Com amizade e admiração.
C.R.
Grande coragem ser assumido há 50 anos atrás!
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