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sábado, 4 de outubro de 2008

Antologia

tercetos e última flor do lácio
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Noite ainda, quando ela me pedia
Entre dois beijos que me fosse embora,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:
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"Espera ao menos que desponte a aurora!
Tua alcova é cheirosa como um ninho...
E olha que escuridão há lá por fora!
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Como queres que eu vá, triste e sozinho,
Casando a treva e o frio de meu peito
Ao frio e à treva que há pelo caminho?!
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Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!
Não me arrojes à chuva e à tempestade!
Não me exiles do vale do teu leito!
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Morrerei de aflição e de saudade...
Espera! até que o dia resplandeça,
Aquece-me com a tua mocidade!
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Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava...
Espera um pouco! deixa que amanheça!"
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— E ela abria-me os braços. E eu ficava.
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OLAVO BILAC, in «Poesias» (1902) - poema integrante da série “Alma Inquieta”
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Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (Rio de Janeiro, 1865 -1918) era filho de Brás Martins dos Guimarães Bilac e de Delfina Belmira dos Guimarães Bilac. Iniciou o curso de Medicina no Rio de Janeiro, mas mudou para o curso de Direito que também não concluiu.
De volta ao Rio de Janeiro, passou a dedicar-se à literatura. Foi jornalista e membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Correspondente do jornal A Cidade do Rio em Paris, terá nesta cidade tomado influências parnasianas e, de volta ao Brasil, publica o romance O esqueleto, em forma de folhetim, sob o pseudónimo de Vítor Leal.
Autor de crónicas que inflamaram a intelectualidade luso-brasileira do seu tempo, foi, porém, como poeta, que Bilac se imortalizou. Foi eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros e, com Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, a chamada Tríade Parnasiana, foi líder da expressão do Parnasianismo no Brasil. A publicação de Poesias, em 1888 rendeu-lhe a consagração.
Entre as suas obras-primas podemos considerar o soneto em que se refere à língua portuguesa como a Última Flor do Lácio - aliás, o nome do próprio poema.


Última Flor do Lácio

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O génio sem ventura e o amor sem brilho!
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